sexta-feira, 16 de abril de 2010

Nossa memória é curta e as prefeituras omissas.

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com


Os responsáveis por todo espaço urbano são as prefeituras. A elas cabem a fiscalização e o controle do uso do solo. Se alguém quiser fazer uma construção ou reforma em uma casa tem que solicitar permissão ao órgão municipal competente. Apresentar projetos para aprovação, cálculos estruturais, entre outras dezenas de exigências.

Na realidade isso só funciona dessa forma se a sua construção for em um local, digamos, “privilegiado”. Se for em uma encosta ou local insalubre, aí pode-se fazer o que quiser que o fiscal da prefeitura não vai controlar. Eles não enxergam e, o que “olhos não vêem, coração não padece...”

Essa omissão da prefeitura em controlar e fiscalizar o uso do solo urbano é a causadora de todas estas tragédias que, de tempos em tempos, ocupam os noticiários. Discutem-se soluções que, na realidade, todos sabem quais seriam. É cíclico. Tudo é sempre “empurrado com a barriga”, ou seja, o próximo eleito que resolva e sempre com o mesmo pensamento: “não quero me indispor com o povo, assim não perco voto”.

Na hora das tragédias, ninguém sabia que as casas tinham sido construídas, ou que o local era perigoso. Ninguém sabe nunca de nada neste país. Foram construídos acesso, a região foi eletrificada, possui telefone, água e, a depender, linha de ônibus. No entanto, ninguém sabia que aquelas construções existiam. O poder público deixa o cidadão entregue a sua própria necessidade e ignorância, ou, ignorância por necessidade de construir naqueles locais. E depois? Acaba tudo em pizza. Em esquecimento!

As fortunas que são gastas tentando remediar o prejuízo financeiro e o irremediável que são as vidas perdidas, seriam, com certeza, mais que suficientes para proceder com políticas públicas sérias e o saneamento necessário às construções populares para nosso povo tão necessitado de moradias dignas com infra-estrutura descente.

Os projetos urbanísticos só alcançam alguns bairros e, a prova disto, são as enormes distorções dos índices de desenvolvimento humano em uma mesma cidade. Os bairros mais pobres continuam a nascer sem controle e sem planejamento. Como os números de votos contam mais que o fazer “certo ou errado”, pois trata-se aí de uma lógica perversa, quem faz certo não é reeleito por desagradar uma parte da população, vemos a omissão das prefeituras aceitando tudo de grandes comunidades, pois elas são as que têm o poder da reeleição.

Acredito que a solução para o problema venha pelo caminho da diminuição de cargos de confiança e a delegação das secretarias aos técnicos de carreira que não dependem de votos ou política para ocupar as pastas. Com secretarias chefiadas por quem possa ser responsabilizado por suas omissões, em virtude de serem funcionários públicos, e, não políticos que passam pelo poder nomeando secretários de pastas, de acordo com suas conveniências políticas – nunca por méritos ou conhecimento de causa.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tragédia anunciada - Já ouvi isso antes.

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com


Entra ano sai ano e tudo se repete. As manchetes dos jornais, o noticiário das rádios e televisões, sempre a mesma coisa. Inclusive a mesma realidade: a tragédia que se abateu sobre o Rio, em poucos meses, vai para a gaveta do esquecimento. É brutal, mas vai ser assim. Ninguém mais fala sobre as enchentes e mortes em Itajaí, nas mortes de Paraty, ou dos últimos deslizamentos, ano passado, no Rio, entre outras tantas catástrofes ditas “naturais”.

Só que uma grande parte é culpa nossa. De omissões e descaso do poder público, da falta de políticas públicas com saneamento, moradias, transporte, urbanização, entre diversos outros itens responsáveis por uma qualidade de vida e, porque não dizer, cidadania.

Continuamos invadindo as encostas dos morros, as várzeas dos rios, que são transformados em esgoto. Ocupamos as praias. Derrubamos árvores, entupimos lagoas, concretamos e asfaltamos tudo. A terra nas cidades já não respira. Sufoca.

Amontoados de casas penduradas nas encostas fazem parte da realidade brasileira. Casebres nascem, a cada dia, como se brotassem do chão como cogumelos. Primeiro, construções em papelão, plásticos ou similares, depois bloco, e, em pouco tempo laje com primeiro e segundo andar.

O poder público assiste a tudo. A sociedade não cobra. A classe dominante não liga. E quando chega a oportunidade de mudar através do voto, o povo se deixa iludir. E, aí, tudo retorna ao problema principal – educação.

sábado, 3 de abril de 2010

Paraíso ameaçado

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com

Composto por 36 ilhas, o único município insular do Brasil é baiano. A sede do município, a cidade de Cairu, está situada a aproximadamente 150 quilômetros ao sul de Salvador. A região apresenta uma grande diversidade de ecossistemas e é de uma beleza estonteante.

Em 1992 foi criada a APA (Área de Preservação Ambiental) Tinharé-Boipeba, nome das duas ilhas mais visitadas do município, com o objetivo de preservar todo o rico acervo natural da região. Inserida no Corredor Central da Mata Atlântica, ela é reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Patrimônio da Humanidade.

Cairu, sede do município, surgiu durante o povoamento da capitania de Ilhéus e, em 1608 com o nome de Vila de Nossa Senhora de Rosário de Cairu, era uma das mais importantes vilas da Colônia. Foi palco de batalhas sangrentas com os índios Aimorés, habitantes da região. Muitos colonos preferiram habitar as ilhas próximas como melhor forma de defesa dos ataques indígenas. Isso provocou o surgimento de vilarejos em diversos pontos do arquipélago, como Velha Boipeba na ilha de Boipeba e Morro de São Paulo, na ilha de Tinharé.

Na segunda metade do século XVIII, a exploração de madeira e farinha era tão importante que Cairu chegou a contribuir com a reconstrução de Lisboa, após o terremoto e maremoto de 1756. Em 1870, o desmatamento alcançou um nível tão intenso, com lucros tão grandes que, a Coroa nomeou um Juiz Corregedor das Matas para disciplinar o corte da madeira na região. Porém, o controle não surtiu efeito e, vinte anos mais tarde, a Coroa tombou o remanescente da Mata Atlântica.

Esse detalhe demonstra a enorme problemática que continua a ameaçar a região ao longo dos anos. As ilhas sofrem degradação constante através da ação do ser humano. É o desmatamento, a pesca predatória, a caça ilegal e o advento do turismo.

Embora de importância fundamental para a sobrevivência e a própria manutenção econômica, o turismo traz diversos problemas para a região. Dentre esses problemas, podem-se destacar as construções ilegais, que avançam sobre áreas que deveriam ser preservadas e a produção de lixo.

Em breve visita às duas principais ilhas, Tinharé e Boipeba, que contam com maior fluxo turístico, temos, por exemplo, em Morro de São Paulo, a grande ocupação por construções ilegais até beira-mar. Durante a maré cheia, torna-se impossível andar por algumas praias, tal a sua ocupação. São construções de alvenaria destinadas a atender o turista. Já não resta mais espaço para a desova de tartarugas marinhas e, em muitos locais, o mar, em sua luta, tenta resgatar o que lhe tiraram, ameaçando derrubar algumas construções.

Também em Morro de São Paulo, embora fique restrito à periferia da cidade, nota-se que o trânsito de veículos está cada dia mais intenso. Em algumas pousadas, o barulho dos motores já serve como despertador para os hóspedes. Estes carros são, em sua maioria, também dedicados ao transporte de turistas.

Mas é o lixo que aflige todas as ilhas habitadas e, principalmente, as mais visitadas pelos turistas. Na época de alta estação, o número de visitantes faz com que a quantidade de lixo produzida torne-se um problema ainda maior. Não existem números.

No momento tudo é descartado em “lixões”, ou seja, áreas onde tudo é retirado das vistas dos moradores e turistas e depositados amontoados, contaminando o subsolo, matando alguns animais e aumentando a população de outros, como ratos por exemplo.

Existem algumas ações procurando sensibilizar os moradores para o grande problema provocado pelo lixo, bem como alguma reciclagem. Estudantes de turismo e associações realizam anualmente mutirões de limpeza nas praias, mangues e ruas.

Os dados abaixo, sobre o tempo de decomposição de alguns materiais, expõem a grande problemática do mundo, principalmente o de paraísos ecológicos, responsáveis por manutenção de ecossistemas para a prosperidade. Tudo apontando para a necessidade de investimentos, sensibilização e capacitação humana com a finalidade de solucionar o grande problema chamado LIXO.


Alguns números sobre o tempo de decomposição de materiais:
• Isopor não degrada naturalmente
• Lata de alumínio de 200 a 500 anos, e algumas fontes citam até 1000 anos
• Nylon 650 anos
• Plástico aproximadamente 450 anos
• Latas de conserva 100 anos
• Copos de plástico 50 anos
• Madeira pintada 13 anos
• Latas de aço 10 anos
• Chicletes 5 anos
• Filtro de cigarro 2 anos
• Cascas de frutas de 1 a 3 meses

sexta-feira, 26 de março de 2010

“O fugitivo”

Texto: Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com

“O fugitivo” é o título de um filme americano que tem como tema central um médico, representado por David Janssen em sua primeira versão e Harrison Ford na segunda, acusado de estuprar e matar a própria esposa. Mesmo alegando inocência e, sem provas contundentes, ele foi condenado em virtude da apresentação de evidências. Conseguiu escapar da prisão após um acidente de carro que o conduzia e, durante sua fuga, procurava incansavelmente por um homem de um braço só, que afirmava ter visto na cena do crime. Perseguido por toda polícia, tinha um agente em especial que colocou a captura do fugitivo como meta em sua vida. O filme principal foi em seguida transformado em série de televisão dos anos 60.

Na vida real, este drama foi vivido por uma família americana, classe média alta. Eles tinham um filho. O médico nunca conseguiu provar sua afirmação sobre a existência de uma terceira pessoa, que seria segundo ele, o verdadeiro algoz de sua esposa. Ninguém acreditava na versão de um indivíduo ter invadido a casa do casal, estuprado e, em seguida, assassinado a vítima em poucos minutos. Principalmente por se tratar de uma pessoa deficiente física - sem um braço.

O fugitivo, como ficou conhecido, morreu na prisão. Seu filho nunca aceitou a versão da polícia e a condenação de seu pai mas, só conseguiu provar a inocência dele, com o surgimento do exame de DNA. Tarde demais, pois seu pai já havia falecido.

Esse foi apenas um caso famoso, transformado em reality show pela mídia, entre tantos outros anônimos, comprado pelo público por toda sua carga emotiva e representatividade do momento vivido pela sociedade. O médico já havia sido condenado mesmo antes do julgamento. Uma família dilacerada sem chance de se recompor.

Estamos mais uma vez diante de fato parecido. O casal Nardoni. O julgamento ainda não terminou e, na verdade, não importa se serão ou não inocentados. Não quero defendê-los, tão pouco acusá-los. Não me sinto em condições de julgá-los. Quero apenas deixar, plantado em nossos corações, o beneficio da dúvida.

Nada trará de volta a menina Isabella. Essa é a única verdade.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Tem hora pra tudo

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com

Ávidos de informações, ligamos a televisão para assistir a um noticiário. De repente, no meio do programa, aparece um clone de Ana Maria Braga fazendo bolinhos de feijão e de outro alguém mais, comentando a moda da próxima estação.

Fico pensando se é correto, durante um programa que se propõe a passar notícias do Brasil e do mundo, em já escassos 30 minutos, os editores encontrarem ainda, como por milagre, tempo para ensinar a fazer bolinhos de feijão...

Temos, na televisão, 24 horas de programações “light” com espaços dedicados a todo tipo de entretenimento digamos, descompromissados. Porque usar o pouco tempo reservado para situar o povo brasileiro na realidade contemporânea, informando assuntos de grande relevância, com assuntos tão banais? Acredito que as pessoas, ao assistir noticiários, estão à procura de informações que mexem com o mundo e, nem um pouco preocupados com receitas ou moda.

As emissoras de televisão precisam perceber que existe outro público - um espectador em busca de informação séria, dos problemas que afligem a humanidade, do conhecimento geral, da economia, entre outras coisas. Será que não tem mais nada importante acontecendo no planeta, suficiente para preencher este pouco tempo reservado aos noticiários?

Sinto-me frustrada e acredito que, como eu, milhões de brasileiros que, por um motivo ou outro, não dispõem de canal fechado. Considero um desserviço e um insulto a nossa inteligência, preencher esses raros espaços que deveriam estar “recheados” de informações importantes, com futilidades e matérias baratas de gaveta.

Registro aqui meu protesto esperando que, algum dia, o povo brasileiro possa contar com emissoras de televisão preocupadas, de fato, em passar um retrato da realidade, situando a população no espaço e tempo da atualidade mundial. Emissoras preocupadas com a qualidade de sua programação, que tenham consciência de seu poder como mídia e conseqüente responsabilidade social. Esse seria um grande passo para o desenvolvimento do nosso país, cuja população está tão carente de conhecimento.

sábado, 13 de março de 2010

Refletindo sobre “cotas”

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com

Há mais de 10 anos o sistema de cotas para ingresso nas universidades brasileiras é lei e tema de discussão. O assunto se tornou uma grande polêmica, fornecendo estopim para debates calorosos, solicitação de liminares dos prejudicados pelo sistema e, até agora, não existe um consenso sobre o assunto.

A explicação para implantação de cotas não convence e não justifica que, em um país multirracial, a população seja obrigada a definir a que etnia pertence. O que define isso? Porque uma pessoa é obrigada a optar pela raça A, B, C ou D? A quem cabe esta decisão? Quais os parâmetros utilizados para tanto?

Fomos testemunha, através da mídia, de dois irmãos que fizeram opções diferentes e, como premio, o que optou por se declarar negro entrou na faculdade pelo sistema de cotas, enquanto o outro não.

Pessoalmente, considero toda essa situação um desvio do que deveria ser o foco principal do problema: a qualidade do ensino nas escolas públicas brasileira. Esse, sim, é o verdadeiro calcanhar de Aquiles.

Igualdade se faz a partir da educação e não de cotas. Igualdade se faz com oportunidades iguais para todos.

Se todo nosso esforço, ao longo desses mais de 10 anos, fosse voltado para a melhoria da educação, provavelmente, em pouco tempo, seria possível efetivar o sonho da igualdade ou, ao menos, minimizar as diferenças socioeconômicas brasileira. Miséria, pobreza e a falta de oportunidades, não têm etnia, não tem cor. O que tem é a falta de políticas públicas e os respectivos investimentos necessários à educação.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Em defesa de Geni

Texto Magda Kaufmann
magdakaufmann@hotmail.com

Geni, figura imortalizada na música de Chico Buarque de Holanda, de certa forma, me lembra a nossa Policia Militar.

Para evitar qualquer especulação, não sou militar, nunca fui, nem tenho parentes na polícia. Simplesmente acompanho com olhar crítico o trabalho, procuro me inteirar dos problemas enfrentados no dia a dia pelos policiais e leio as matérias veiculadas na mídia.

É um misto de revolta por certas atitudes de alguns integrantes da corporação e, o aplauso, pela atuação de muitos outros. Revolta quando temos notícias da truculência, do despreparo e de bandidos que se aproveitam do fardamento para efetuar crimes. Aplauso pela coragem, abnegação, respeito e educação de tantos outros que, geralmente, não são mencionados pela mídia e, portanto, não alcançam o reconhecimento popular.

Hoje, na Bahia, temos aproximadamente 30 mil integrantes da Policia Militar. Dentro desse número de pessoas, existem os bandidos e os mocinhos, em amostragem semelhante á própria população a que eles pertencem. Esses policiais são responsáveis pela segurança ostensiva, salvamentos de pessoas e animais, combate a incêndios, dentre outras atividades.

Nas ruas, a qualquer hora do dia ou, principalmente, altas horas da noite, se você procurar um integrante do poder público, certamente o único provável de ser visto, será um policial militar. É a ele que toda a população, ao enfrentar qualquer problema, se dirige e exige que seja tomada uma atitude.

Infelizmente, o que não atentamos é de como este cidadão fardado vem para as ruas sem um preparo adequado para atender a sociedade. A maioria das pessoas não sabe que um policial militar, aqui na Bahia, vem exercer sua função com apenas 6 a 9 meses de curso preparatório, enquanto que, em São Paulo, o tempo de treinamento é de 1 ano e nove meses. Atirar por exemplo, é algo difícil, de grande responsabilidade, mas, no entanto, o policial recebe uma arma e, na maioria das vezes, pasmem, sem ter efetuado um único tiro.
O que podemos esperar de uma corporação tão importante se nós não exigimos dos nossos governantes que a mesma seja tratada com a atenção necessária? Afinal, nossa segurança e, porque não dizer, nossas vidas estão nas mãos destes indivíduos.

Em vez de cobrarmos apenas do policial, que na verdade é apenas a base da pirâmide, temos que cobrar dos que põem pessoas despreparadas nas ruas com armas na mão. Temos que exigir que a corporação que cuida da nossa segurança seja tratada com o devido respeito.

Temos que exigir que o policial militar tenha treinamento, remuneração adequada e que a policia receba verba necessária para equipamentos modernos. Temos que amadurecer como cidadãos e exigir que sejamos respeitados. Porque o policial militar em São Paulo é mais treinado e recebe remuneração melhor do que aqui?
Somos cidadãos de 2ª categoria?

O que não podemos e não devemos continuar a fazer, é ficar jogando pedras na Policia Militar como se ela fosse a Geni de Chico. Vamos dirigir nossas críticas e reivindicações a quem de direito.